15 de novembro de 2010

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Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.

(Liberdade, de Sophia de Mello Andresen )

Acho bem difícil definir liberdade e respeito.É pessoal , resultado dos valores que carregamos, da importância que cada um dá aos sentimentos do outro,ou ainda da necessidade íntima de aprovação por quem nos é próximo.
Na arquitetura não é diferente e é difícil sobretudo ensinar à moçada ,na teoria, a melhor maneira de definir o limite de cada um desses conceitos, lidar com o sombreamento natural que existe entre eles,e o mais importante :sem comprometer a criatividade.
Semana passada solicitei aos alunos que copiassem o texto que coloquei na lousa,não em seus próprios cadernos, mas no caderno do colega ao lado.Surpresa e curiosidade geral. Uns sentiram-se inseguros em "invadir" o espaço do outro - mesmo autorizados; Outros ficaram mais a vontade e até capricharam na letra ou temerosos da crítica ou buscando fazer o melhor na área do outro;Uma aluna apenas mal tomou posse do espaço que não era seu, começou a rabiscá-lo,brincando com as folhas brancas, para desespero do dono do caderno que precisou dar um grito para que ela se tocasse;Finalmente a grande maioria temeu pelo seu espaço nas mãos de outro.
A intenção era levantar os vários comportamentos e sentimentos quando trabalhamos com o que não é nosso, mas, a analogia foi inevitável.Fiquei imaginando a maneira como aquela garota ,que rabiscou o caderno do amigo, costuma entrar na vida das pessoas. Provavelmente sem pedir licença e rabiscando tudo , ansiosamente. Desorganizadamente.E você, já encontrou alguém assim?

Beijo, pessoal.

3 comentários:

Edu disse...

Cris, que exercício interessante!! Nunca havia pensado nisso, ou melhor, feito qualquer coisa parecida nesse sentido. Ou talvez sim - um pouco a sensação que temos (ou provocamos) quando usamos o computador de outra pessoa. :-)

Beijo procê!

Jens disse...

Putz, Cristinete, que legal. Como disse o Edu, uma idéia extremamente original. Não sei bem qual seria a minha reação: suspeito que um misto de curiosidade e insegurança de um lado (o caderno do outro) e de apreensão e vergonha (em relação ao meu caderno). Curiosidade estimulada pelo voyer que existe em mim; insegurança pelo temor de macular o espaço alheio. Apreensão pela necessidade que sinto de ser aprovado; vergonha pelas "gracinhas", vamos dizer assim, com que costumava adornar meus cadernos escolares (além de expressões chulas, desenhos de orgãos genitais com asas, entre outras formas de expressão, sensíveis e delicadas, comuns a um bagual de boa cepa).
Deve ser legal ser teu aluno. Estou pensando em voltar aos bancos da faculdade.

Beijo.

(PS: você deixa colar?)

LuCordeiro: disse...

Oi,Cris,Menina,achei fantástico esse teste e o que vc conseguiu avaliar com ele.Eu conseguiria,sim,escrever no caderno do outro,mas teria mto cuidado pq não consigo invadir a privacidade alheia.Me sinto desconfortável com a idéia.Qto a pessoas que vão entrando em nossa vida e rabiscando tudo,sem pudor,já tive essa experiência e posso garantir que eu me sentia desrespeitada,invadida e furiosa.Mas nunca fiquei quieta qto a isso,me defendia com unhas e dentes.Mas o desgaste era mto grande.Geralmente este tipo não respeita os outros nem a si mesmo.
Essa sua aluna vai causar danos a mtas pessoas,pode crer.
Ótimo e surpreendente texto.
bjocas,"fessora" que sabe das coisas!