30 de julho de 2009



A Cura

Na juventude ela era a mais acabrunhada. A mais tímida e , paradoxalmente ,a mais atrevida também ("debaixo dos pano", como sua mãe gostava de falar). Éramos do tipo boazudas,aquelas que chamam a atenção pelas curvas acentuadas (quando a estrada é nova) mas propícias às derrapagens no inverno pelo acúmulo de obstáculos (lipídicos) . De qualquer forma ela manteve ao longo dos anos uma silhueta arredondada " -E sexy!", dizia, lembrando de alguma cantada. Eu não. Nem gorda nem sexy.
Me recordo de nós duas no cursinho nos anos 70 , celeiro de intelectuais engraçadinhos na pele de professores de vanguarda . Época de terror emocional e sobressaltos para quem , com o pé ainda na adolescência, se habituara a mestres sisudos e rigorosos . E que ensinavam, diga-se. Naquela época ela ficava vermelha só de imaginar ser atingida por um giz daquele "japa" maluco da trigonometria, quando queria escolher uma vítima para questionar. Haja!
Amores platônicos teve inúmeros . Bastava receber um sorriso distraído e lá vinha ela : -"Cris, tô amando, agora é pra valer.Ele me sorriu tão lindinho, e mais, antes de virar a esquina olhou para trás.Que fofo!!! Ví desejo nos seus olhos!!!" Era essa a impressão digital da minha mais querida companheira de estrada. Sentia-se amada através da sedução.Amava amar, amava se apaixonar. Amava o desejo que despertava, mesmo sem saber muito como lidar com o dono do desejo. Arriscava-se. Dedicava-se. Desesperava-se a cada tentativa .A cada frustração. Amores sofridos, dramáticos, curtos e intensos que deixaram em seu peito marcas tão profundas quanto equivocadas. Equivocado também era seu conceito de amor e paixão:inevitavelmente acompanhado de dor.
Semana passada combinamos comer um pastel do japonês (é, eles nos perseguem ) na feirinha de quinta à noite, após um tempo de contato só por telefone.Quase não a reconhecí, não fosse pelos olhos , inconfundíveis, de um verde profundo e sempre parecendo molhados .Estava visivelmente bem . Bonita, magra,infinitamente mais jovem , apaixonada . Não reparei nos detalhes da roupa , mas me lembro que eram largas, valorizavam os ombros, o colo, e mostravam o quanto ela está bonita na maturidade.Disse-me que não encontrou "O" amor, mas o caminho do amor. E que não busca mais por ele. Também deixou de tentar quando é apenas encontrada pelo que parece ser amor. Está serena. Me diz que Amor acontece. Simplesmente.
Descomplicadamente.
É, pelo jeito tem acontecido.

Lindos e lindas, vou visitá-los durante a semana, nesse ritmo lento e faltoso que a vida me impôs aquí no virtual.A vida tem uma agenda própria, por vêzes difícil da gente comparecer.

Então tá . Até mais então.

Beijaço.

12 comentários:

Jacinta Dantas disse...

Oi Cris,
eu, por aqui, vou também me revendo, nos amores buscados, sofridos... um pouquinho mais na frente, anos 80... mas a busca é igual em todas as décadas. E, eu, hoje, insistindo, querendo encontrar o caminho.
Beijo

Ery Roberto Correa disse...

Gostei dessa sua amiga. Seu relato a respeito do modo como encara o Amor atualmente me parece inteligente.

Digo isto porque depois de um tempo em comum o Amor muda. Sinto isto. E não admito que digam que é assim mesmo, que a idade e a convivência aprontam coisas estranhas que não entendemos direito. É errado. Se disserem que é o tesão rareando tendo a aceitar com maior parcimônia. O pensamento, não a real.

Sei lá, sempre defendi que o Amor tem que ser renovado. Do contrário vira um "caso muito sério".

Beijos.

* Patty Meirelles * disse...

Passando para deixar-te um beijo carinhoso e também para desejar-te um excelente fim de semana.
Patty

Aninha Pontes disse...

E é assim né?
Todas nós aprendemos.
O mais importante é que ela, descobriu que mara é bom, a não perder o caminho do amor.
Mesmo que não procure mais por ele, viver o amor, quando ele "pinte", é algo renovador.
Aos poucos se cria um "couro" duro, que dificulta o sofrimento. Isso basta. Viver e viver o amor.
beijos linda, bom final de semana.
Beijos nos seus queridos.

DO disse...

Pra mim,é muito bom qdo a gente revê uma boa amizade do passado,Cris. É como se parte de nós voltasse a respirar.

E gostei do modo como ela está encarando o amor. É por ai.

Beijos e um otimo fds!!

Cris Animal disse...

Oi Xará...........

Ahhhhhhhhhhhh, o amor !
Ando brigada com ele e quero um pouco de distãncia, mas ele é supremo e milagroso. Ele realmente pode curar.

beijos

Jens disse...

Oi Cris.
Tua amiga conquistou a sabedoria cantada por Caymmi: "o amor acontece na vida" - geralmente quando estamos desprevenidos.

Um beijo.

Paula Calixto disse...

"Disse-me que não encontrou "O" amor, mas o caminho do amor."

E não é esse, justa-mente, O caminho?!

Yeh.

Beijos.

Dora disse...

Ah! Cris! Sua amiga fez um trajeto rico, na minha opinião. Teve amores. Foi cortejada( que palavra antiga!!!),amada, desejada. E se tornou sábia e sóbria. Tem uma história bonita. E fez uma aprendizagem em meio ao que chamamos "vida": amores, dores, encontros, desencontros...Tá tudo certo com essa amiga querida!
Beijo você, minha amiga também querida( e também sábia!).
Dora

Jens disse...

Eu, uma bola?
Espero que não seja uma referência engraçadinha à minha circunferência abdominal.

tony disse...

e é bom quando temos amigos que nos mostram que a gente muda, cresce, vive :)... [ah, e no post anterior: arquitetura é fantastico! uma paixão menor ante seu irmão design, mas não menos interessante]. Aproveite o melhor que a vida estiver te oferecendo, pois ela é offline =)

beijos!

DO disse...

Cris,estou convidando os amigos blogueiros para me ajudar na participação e divulgação de uma postagem coletiva no próximo dia 10 de agosto.

Os detalhes estão lá no meu blog.

Posso contar contigo??

Beijos!!